Em 2026, a cidade de Fujiyoshida, perto do Monte Fuji, chegou a cancelar seu festival local de sakura depois que o número de visitantes ultrapassou 200 mil pessoas em uma única temporada. Esse tipo de notícia é cada vez mais comum e mostra algo que todo casal planejando a viagem devia levar em conta: o “roteiro clássico” das cerejeiras está ficando saturado.
A boa notícia é que o fenômeno da floração não está restrito ao eixo Tóquio, Kyoto e Osaka. Duas regiões inteiras do país, Shikoku e Kyushu, têm cerejeiras tão bonitas quanto as das grandes cidades, com uma vantagem clara para quem viaja a dois: infraestrutura turística real (hotéis bons, trens organizados, sinalização em inglês), mas sem o volume de gente que transforma um passeio romântico em um empurra-empurra por espaço na foto.
Shikoku: a ilha que a maioria dos roteiros ignora
Shikoku é a menor das quatro ilhas principais do Japão e, justamente por isso, fica de fora de praticamente todo roteiro padrão de primeira viagem. Isso é uma vantagem para casais: menos concorrência por reserva de hotel, preços mais em conta e ruas de hanami sem fila.
Matsuyama, na província de Ehime, é o ponto de entrada mais fácil da ilha. O Castelo de Matsuyama, um dos 12 castelos originais do Japão (ou seja, que sobreviveram praticamente intactos desde o período feudal), fica cercado de cerejeiras e é possível subir até ele de teleférico, um passeio curto e cênico que já vale como programa a dois. Depois do castelo, vale reservar uma tarde para o Dogo Onsen, um dos banhos termais mais antigos do país e que serviu de inspiração para o filme “A Viagem de Chihiro”. A combinação de castelo florido de manhã e onsen à noite é um roteiro de casal que rende uma combinação rara de ver em um único dia.
A cerca de 30 minutos de Matsuyama fica Uchiko, uma cidadezinha histórica com ruas de casas preservadas que lembram o bairro de Gion em Kyoto, só que praticamente sem turistas. É o tipo de lugar ideal para quem quer fotos de viagem sem precisar esperar a pessoa da frente sair do enquadramento.
Kyushu: a região sul que floresce primeiro e recebe menos gente
Como Kyushu costuma ser onde a temporada de sakura começa no calendário japonês (geralmente ainda no fim de março), muitos casais acabam associando a região só a Fukuoka, quando na verdade existem opções mais tranquilas e igualmente bonitas.
Em Saga, entre Fukuoka e Nagasaki, fica o jardim Mifuneyama Rakuen, aos pés do Monte Mifune. Cerca de 2.000 cerejeiras cobrem as encostas ao redor de lagos que refletem os penhascos, e à noite o local promove uma das maiores iluminações noturnas de sakura de toda a região de Kyushu, sem a lotação que um evento parecido teria em Tóquio.
Em Kumamoto, o castelo da cidade é cercado por cerca de 800 cerejeiras, incluindo a variedade Somei Yoshino (a mais comum e fotografada no Japão) e a Yamazakura, uma espécie silvestre mais rara. O contraste entre as flores e as muralhas de pedra escura do castelo cria um cenário bem diferente das fotos mais repetidas de Kyoto. Ao redor, o parque Ninomaru é aberto e tranquilo, ótimo para um piquenique de casal sem disputar espaço de toalha no chão.
Já em Fukuoka, quem quiser ficar mais perto do centro urbano sem abrir mão da tranquilidade pode optar pelo Maizuru Park, construído sobre as ruínas do antigo Castelo de Fukuoka. Por não estar em nenhum guia “top 10 do Japão”, o parque costuma ter um fluxo de visitantes bem mais controlado que os parques equivalentes em Tóquio ou Osaka.
Por que essas regiões funcionam melhor para casais do que para outros perfis de viajante
Um mochileiro sozinho ou um grupo grande de amigos costuma priorizar volume de atrações e vida noturna, o que naturalmente puxa o roteiro de volta para as grandes cidades. Já um casal, na maioria das vezes, está buscando o oposto: menos deslocamento, mais tempo de qualidade em cada lugar e cenários que rendam boas fotos sem precisar disputar espaço.
Shikoku e Kyushu entregam exatamente isso, com dois benefícios práticos a mais:
Custo menor de hospedagem. Hotéis em Matsuyama, Kumamoto ou Saga custam, em média, bem menos do que equivalentes em Kyoto durante a semana de pico de floração, quando os preços da cidade chegam a triplicar.
Trens de alta velocidade conectando tudo. O Shinkansen liga Fukuoka a Kumamoto e Kagoshima em menos de uma hora, o que permite montar uma “mini rota” de dois ou três dias sem depender de carro alugado.
Como encaixar essas regiões em um roteiro sem perder a floração
Como Kyushu costuma florescer primeiro (fim de março) e Shikoku fica um pouco atrás disso (geralmente na primeira semana de abril), a ordem lógica de um roteiro de casal seria começar pelo sul, em Kyushu, e depois seguir para Shikoku, o que também funciona bem para quem for, na sequência, encerrar a viagem em Osaka ou Kyoto (que costumam florescer nessa mesma janela ou pouco depois).
Isso evita o erro mais comum de quem tenta “fugir das multidões” só de nome: chegar em um destino alternativo fora da janela de floração, sem ter ajustado o calendário à região certa.
Antes de fechar o roteiro
Se o objetivo da viagem é ver cerejeiras sem virar mais um casal perdido em meio a uma multidão fotografando o mesmo ângulo, trocar parte do roteiro pelo eixo Shikoku e Kyushu entrega uma experiência mais parecida com o que se imagina quando se pensa em uma viagem romântica ao Japão: tempo, espaço e um cenário só para os dois.